EL PAÍS – Javier Valenzuela
A primavera árabe acaba de derrubar sua terceira ficha de dominó. Em janeiro, o tunisiano Ben Ali fugiu para a Arábia Saudita com as malas cheias; em fevereiro o egípcio Mubarak foi detido por seus soldados e agora está sendo julgado; nesta quinta-feira (20), o líbio Gaddafi, fiel até o fim a seu personagem, foi abatido em seu feudo natal em Sirte.
Quem disse que a primavera árabe estava terminada? Em menos de um ano derrubou três tiranos do norte da África, colocou o sírio Al Assad e o iemenita Saleh na posição de feras encurraladas e promoveu reformas democráticas no Marrocos. Impressionante.
Sabemos que para a Tunísia, o Egito e ainda mais a Líbia resta uma tarefa enorme. Não será nada fácil construir Estados com direitos e liberdades aceitáveis, avançar em temas como a igualdade das mulheres, a proteção das minorias ou a neutralidade do Estado em matéria religiosa, integrar os islâmicos na democracia, pôr fim à corrupção e estabelecer um mínimo de justiça social. E isso em um contexto econômico regional e global muito negativo. O copo não está cheio, é claro.
Mas, se pensarmos que há menos de um ano estava completamente vazio – pelo menos para os democratas, talvez não para os partidários da “realpolitik” e dos negócios do petróleo -, há sólidas razões para alvoroço.
A queda de Ben Ali e Mubarak confirmou Gaddafi em sua ideia de que o melhor modo de continuar no poder era usar a máxima brutalidade. Respondeu, portanto, com sangue e fogo ao começo da rebelião líbia, em fevereiro.
Felizmente, quando os rebeldes de Benghazi estavam prestes a ser massacrados, a comunidade internacional liderada por Paris e Londres soube reagir. O que estava em jogo não era só o futuro da Líbia, mas de toda a primavera árabe. Se Gaddafi tivesse triunfado, o vento do combate pela liberdade e a dignidade no mundo árabe poderia ter-se extinguido. A intervenção internacional na Líbia é um êxito ao lado da ilegal, contraproducente e desastrosa invasão do Iraque.
Os triunfantes rebeldes líbios vão ter de superar contradições de todo tipo – ideológicas, políticas, pessoais, locais, tribais, de visão do papel da religião no Estado… – existentes em seu seio. Trata-se nem mais nem menos de construir praticamente do zero um país e transformá-lo, além disso, em uma democracia apresentável. A Líbia tem uma identidade nacional recente e escassa; ao seu lado, o Marrocos, Tunísia e Egito são nações velhas e relativamente coesas.
E à primavera árabe também resta um longo, retorcido e doloroso percurso.
Normal: o que se iniciou no norte da África e Oriente Médio em 2011 é um novo ciclo histórico, algo que vai durar anos, que terá avanços, pausas e retrocessos, que conhecerá vitórias e derrotas. Porque não é a existência de líderes e vanguardas leninistas o que caracteriza as revoluções, mas sim a encarnação de ideias transformadoras em combativos movimentos populares.
Na quinta-feira (20), a luta dos árabes por sua condição de cidadãos cobrou sua terceira peça de caça maior. O sírio El Assad têm agora muitas chances de ser a quarta.
